Saúde mental dos profissionais de segurança precisa ser tratada com acolhimento, prevenção e responsabilidade institucional
Todos os dias, profissionais da segurança pública e privada enfrentam situações que exigem atenção constante, equilíbrio emocional e decisões rápidas. O contato frequente com a violência, o sofrimento humano, o risco e a pressão pode deixar marcas que nem sempre são visíveis.
Por isso, neste Setembro Amarelo, o COSPP chama a atenção para uma realidade que não pode permanecer em silêncio: a saúde mental de quem dedica a vida a proteger a sociedade.
O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Não existe uma causa única nem uma explicação simples. Entre os profissionais de segurança, entretanto, alguns fatores ligados à atividade podem aumentar a vulnerabilidade, como exposição repetida a ocorrências traumáticas, jornadas extensas e trabalho noturno, privação de sono, cobrança por desempenho, conflitos familiares, isolamento social, medo de demonstrar fragilidade e dificuldade para procurar ajuda.
Os números revelam a urgência do cuidado
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 registrou 110 suicídios de policiais civis e militares em 2025. No mesmo período, foram contabilizadas 59 mortes violentas de policiais fora de serviço e 29 em serviço.
Mesmo com uma redução em comparação com o ano anterior, o suicídio permaneceu como a principal causa de morte entre policiais civis e militares no país.
O dado mostra que a proteção desses profissionais não pode se limitar aos riscos das ruas. É preciso considerar também os impactos emocionais da atividade, as condições de trabalho e tudo aquilo que continua afetando o agente mesmo depois do fim do turno.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza
Na cultura de muitas instituições de segurança, resistência e autocontrole são qualidades valorizadas. O problema surge quando essa expectativa faz com que o profissional acredite que precisa suportar tudo sozinho.
Reconhecer o sofrimento e buscar apoio são atitudes de coragem, responsabilidade e preservação da vida. Cuidar da saúde mental não diminui a capacidade profissional. Ao contrário: fortalece o agente, protege sua família e contribui para um serviço mais seguro e humano.
Mudanças persistentes de comportamento merecem atenção, especialmente quando há:
- Isolamento social;
- Irritabilidade intensa;
- Desesperança;
- Alterações importantes no sono;
- Aumento do consumo de álcool ou outras substâncias;
- Perda de interesse por atividades antes valorizadas;
- Falas sobre morte ou sobre ser um peso para outras pessoas;
- Despedidas inesperadas ou distribuição de objetos pessoais.
Esses sinais não devem ser usados para rotular ou julgar alguém. Eles indicam a necessidade de aproximação, escuta e encaminhamento para atendimento especializado.
Como acolher um colega
Ao perceber que alguém não está bem, aproxime-se de forma respeitosa e reservada. Pergunte como a pessoa está, ouça sem interromper e leve o sofrimento a sério.
Evite frases como “isso é falta de força”, “você precisa reagir” ou “há pessoas em situação pior”. O sofrimento emocional precisa ser acolhido, não comparado ou minimizado.
Também é importante não prometer segredo diante de risco imediato. Ajude a pessoa a entrar em contato com familiares de confiança, profissionais de saúde ou serviços de emergência. Se houver perigo iminente, não a deixe sozinha.
Perguntar com clareza se alguém está pensando em tirar a própria vida não incentiva o ato. Uma conversa direta, conduzida com respeito, pode abrir espaço para que a pessoa fale sobre o que está sentindo e aceite ajuda.
A prevenção também é responsabilidade das instituições
O cuidado não pode depender apenas da iniciativa individual.
A Lei Federal nº 14.531/2023 estabeleceu diretrizes específicas para a promoção da saúde mental e a prevenção do suicídio entre profissionais de segurança pública e defesa social.
Entre as medidas previstas estão:
- Atendimento e escuta multiprofissional;
- Respeito à intimidade e à dignidade;
- Acompanhamento psicológico após ocorrências traumáticas;
- Capacitação para identificação e encaminhamento de situações de risco;
- Criação de espaços seguros de escuta;
- Jornadas de trabalho mais humanizadas;
- Participação da família no processo de cuidado;
- Gestão administrativa mais humana.
A legislação também determina que as ações sejam baseadas em evidências científicas e articuladas com a rede pública de saúde.
O Programa Nacional de Qualidade de Vida para Profissionais de Segurança Pública, o Pró-Vida, também apoia ações relacionadas à saúde biopsicossocial, à prevenção do adoecimento, à atenção psicossocial e à valorização dos integrantes do Sistema Único de Segurança Pública.
Criar ambientes de trabalho nos quais seja possível pedir ajuda sem medo de julgamento, exposição ou prejuízo profissional é uma medida essencial. Prevenção exige informação, protocolos claros, lideranças preparadas, atendimento confidencial e uma rede permanente de acolhimento.
Cuidar de quem protege é proteger toda a sociedade
O Setembro Amarelo nos lembra que falar sobre saúde mental com responsabilidade pode salvar vidas. Mas esse compromisso precisa continuar durante todo o ano.
O COSPP reafirma a importância da união entre instituições, profissionais, familiares e sociedade civil para fortalecer uma cultura de cuidado, respeito e valorização da vida.
Nenhum profissional deve enfrentar o sofrimento sozinho. Por trás da farda, do uniforme e da função, existe uma pessoa que também precisa ser ouvida, acolhida e protegida.
Onde buscar ajuda
Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento, procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS), um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou o serviço de saúde e assistência psicológica da instituição.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também pelo site cvv.org.br.
Em situações de risco imediato, procure uma UPA, um pronto-socorro ou ligue para o SAMU, pelo número 192. Não deixe a pessoa sozinha até a chegada de ajuda especializada.

